Não confio em nada criado por africanos

September 14, 2026
Não confio em nada criado por africanos opinião Summit Business School

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No início deste ano tive uma conversa que me deixou bastante desconcertada. Falava com um potencial aluno da Summit Business School, um profissional africano muito interessado num dos nossos MBAs. Já tinha recebido toda a informação, enviado a documentação para avaliação e estava numa fase avançada da sua decisão. A chamada era apenas para esclarecer algumas últimas questões e acabou por ser atendida por mim, embora não tivesse sido eu a pessoa que o tinha acompanhado inicialmente.


A conversa começou de forma muito agradável. Falámos sobre o programa, empresas, empreendedorismo, crescimento profissional e oportunidades. A determinada altura disse-lhe que sou moçambicana e uma das fundadoras da Summit. Foi aí que alguma coisa mudou. Ele disse-me: “Não confio em nada criado por africanos.”


A conversa deixou praticamente de ser sobre o MBA e passou a ser sobre África e sobre aquilo que, na opinião dele, os africanos somos ou não somos capazes de fazer.


O argumento era simples: se nós, africanos, soubéssemos realmente criar e fazer coisas que valessem a pena, os nossos países não estariam na situação política, económica e financeira em que muitos se encontram. Seguiu-se um longo discurso sobre as nossas limitações, os fracassos dos nossos países e a pouca confiança que ele depositava na possibilidade de mudar determinadas realidades.


Ouvi mais do que falei. Não porque me faltassem argumentos, mas porque percebi que dificilmente aquela conversa seria resolvida com uma lista de exemplos de africanos bem-sucedidos. Fiquei a pensar no assunto durante algum tempo e depois segui com a minha vida.


Até que, há cerca de um mês, tive outra conversa. Outra pessoa, outro contexto, mas algumas ideias demasiado semelhantes. E foi essa segunda conversa que me fez regressar à primeira. Já não era uma pessoa, eram duas. Duas pessoas não representam um continente nem permitem tirar conclusões sobre milhões de africanos, evidentemente, mas foram suficientes para me fazer pensar numa questão: o que acontece quando começamos a acreditar que o lugar onde nascemos estabelece também os limites daquilo que somos capazes de fazer?


Não me interessa construir uma visão romântica de África. Os nossos países têm problemas graves. Temos corrupção, desigualdade, desemprego, instituições frágeis, sistemas educativos que precisam de enormes melhorias e economias incapazes de criar oportunidades suficientes para populações muito jovens. Há demasiadas pessoas qualificadas sem oportunidades e demasiadas pessoas que trabalham muito sem conseguir melhorar significativamente as suas condições de vida. Podemos e devemos falar sobre tudo isso.


O que não consigo aceitar é o salto entre reconhecer esses problemas e concluir que eles demonstram uma incapacidade dos africanos para criar, gerir, inovar ou construir alguma coisa de valor. Os fracassos dos nossos Estados não podem ser transformados em certificados de incompetência dos seus cidadãos.


Se aplicássemos o mesmo raciocínio ao resto do mundo, teríamos de considerar cada pessoa responsável pela situação política, económica e social do país onde nasceu. Ninguém escolhe o país em que nasce, o governo que encontra, a qualidade das instituições que herda ou as oportunidades que terá disponíveis. Tudo isto condiciona uma vida e seria ingénuo dizer o contrário. Mas condicionar não é determinar.


Todos os dias encontramos exemplos que contradizem esta ideia. Jovens africanos a criar empresas, projetos tecnológicos, investigação, arte e soluções para problemas concretos nos seus países. Outros fazem-no na diáspora. Encontramos africanos em universidades, empresas, hospitais, âmbitos artísticos, centros de investigação e organizações internacionais em todo o mundo.


Mas este argumento me incomoda um pouco. Por que razão precisamos de apresentar constantemente africanos extraordinários para provar que os africanos são capazes?


Não deveríamos precisar. Não temos de produzir empresários milionários, cientistas mundialmente reconhecidos, atletas de elite ou artistas internacionais para justificar a capacidade de milhões de pessoas comuns. Há africanos brilhantes e africanos medíocres, competentes e incompetentes, trabalhadores e preguiçosos, honestos e corruptos. Como em qualquer outra parte do mundo. Deveríamos poder ser avaliados pelo que fazemos, pelas nossas capacidades e pelas nossas escolhas, e não pela expectativa associada ao lugar onde nascemos.


E é aqui que aquelas duas conversas começaram realmente a preocupar-me. Não pelo que aquelas pessoas poderiam pensar de mim ou da Summit. Sei quem sou e conheço o trabalho que existe por detrás do que construí. Preocupa-me muito mais pensar em quem ainda está a começar e ouve este tipo de discurso vindo das pessoas que estão à sua volta.


O que acontece a um jovem que cresce a ouvir que pode estudar, trabalhar e procurar oportunidades, mas que, no fundo, pertence a um lugar do qual não se espera grande coisa? E o que acontece quando esta ideia deixa de vir apenas de fora e começa a ser repetida pelos próprios africanos?


Não será esta a parte mais difícil? Quando já não precisamos que alguém nos diga que somos menos capazes porque começámos nós próprios a acreditar nisso.


Não sei exatamente como se repara esse dano. Mas acredito que começa na educação, nas referências que damos aos mais jovens e também na forma como falamos dos nossos países. Podemos reconhecer que um país está mal governado sem concluir que o seu povo é incapaz. Podemos criticar as nossas instituições sem acreditar que não somos capazes de construir instituições melhores. Podemos estar frustrados com as oportunidades que não existem e continuar a procurar ou criar outras.


Também acredito em segundas oportunidades. Trabalhar em educação torna difícil acreditar no contrário. Se uma pessoa não pode aprender, mudar, adquirir novas competências, corrigir decisões e tentar novamente, então grande parte daquilo que fazemos na educação perde o sentido. E se a situação atual de um país fosse suficiente para determinar aquilo que os seus cidadãos podem vir a fazer, teríamos também de desistir da própria ideia de progresso.


Não sei se voltarei a falar com alguma daquelas duas pessoas. Também não é isso que importa. O que ficou dessas conversas foi perceber que talvez tenhamos de prestar mais atenção à forma como falamos de nós próprios, sobretudo diante das gerações que ainda estão a construir a ideia do lugar que podem ocupar no mundo.


Não precisamos de esconder os problemas de África nem substituir o pessimismo por um discurso vazio de orgulho africano. Precisamos de conseguir fazer algo mais difícil: olhar para os nossos países com sentido crítico sem transformar os seus problemas numa definição das pessoas que neles nasceram.


A nacionalidade influencia as oportunidades que encontramos, o nosso ponto de partida e, muitas vezes, a dificuldade do caminho. Isso é uma realidade. Mas não deveria determinar antecipadamente aquilo que acreditamos ser capazes de alcançar.


Nascer em África não deveria obrigar ninguém a passar a vida a provar que, apesar disso, é capaz.

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