Aos 44 anos, Popo Show transforma em rap as histórias que não podia contar aos 20

August 19, 2026
Popo Show rap histórias que não podia contar aos 20
Popo Show | DR

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Em VERON, Popo Show regressa ao rap com a bagagem de uma vida atravessada por Cabo Verde e pelos Países Baixos. Aos 44 anos, Epifânio Rodrigues não procura recuperar a juventude: procura transformar em música aquilo que só o tempo lhe permitiu compreender.


Antes de Popo Show havia Epifânio Cardoso Rodrigues, um rapaz do Paiol, na ilha de Santiago, que cresceu entre a ausência dos pais, a proteção dos avós e uma curiosidade pela música que começou cedo demais para ser entendida como carreira. Nasceu a 4 de janeiro de 1982 e, aos cinco anos, viu a mãe emigrar para os Países Baixos. Ficou em Cabo Verde com os avós maternos até aos 16, guardando desses anos a memória de uma infância feliz e de uma casa onde havia espaço para sonhar, ainda que o avô insistisse numa prioridade: "Estudar é mais importante do que cantar." Mas a música foi encontrando maneira de entrar. Depois de o ouvirem fazer freestyle, os membros dos Black Stone convidaram-no para participar num espetáculo, o primeiro palco. Muito antes de existir uma discografia, já existiam a palavra, o ritmo e aquela vontade bastante própria do MC de perceber o que consegue fazer quando uma batida lhe abre espaço.


O nome Popo Show chegaria por intermédio de um amigo, entretanto falecido, que o batizou artisticamente há mais de duas décadas. Mas seria preciso atravessar uma fronteira, abandonar temporariamente a música e viver uma parte considerável da vida antes de esse nome adquirir o peso que hoje procura dar-lhe. Aos 16 anos, Epifânio deixou Santiago para se juntar à mãe nos Países Baixos. A mudança foi mais do que geográfica: encontrou uma nova língua, outra cultura e a necessidade imediata de adaptação. O rap ficou suspenso. "A experiência da emigração obrigou-me a crescer, a adaptar-me e a encontrar novos caminhos", recorda.


Um desses caminhos foi o futebol, outro a formação profissional: em 2006 concluiu formação como personal trainer no Albeda College. A música podia ter ficado como uma memória da adolescência em Cabo Verde, não fosse uma aparelhagem da mãe, com espaço para duas cassetes, tornar-se num dos primeiros estúdios improvisados de Popo Show. Gravava-se, ouvia-se e voltava a tentar. Com poucos recursos, foi aprendendo a controlar a voz sem precisar de gritar para lhe dar presença, uma característica técnica que define o seu trabalho. "Hoje, em qualquer estúdio a que vou, dizem-me que as minhas gravações são feitas sem gritar", conta. Essa disciplina acompanhou-o quando formou os CVMOBB com o primo Erico Cardoso, conhecido artisticamente como Kadafi, e o amigo Papito, experiência coletiva que lhe serviu para trabalhar escrita, freestyle, confiança e identidade enquanto MC.

Popo Show rap histórias que não podia contar aos 20

Popo Show | DR

A trajetória de Popo Show nunca avançou em linha reta. Entre o adolescente que fazia freestyle em Santiago e o homem que hoje apresenta VERON existe uma vida em que a música foi várias vezes empurrada para segundo plano, e um passado sobre o qual o rapper fala sem tentar torná-lo mais atraente do que foi. O período mais duro não foi a indústria musical ou as dificuldades de ser emigrante, mas a morte do irmão mais novo. "Comecei a beber muito e saía de casa sem querer voltar, para não ter de ver a dor da minha mãe", recorda. "Estava numa época em que não me importava com nada."


É nesse passado que encontra raiz a faixa "Homi de respeto", onde coloca frente a frente duas versões de si próprio: o homem de 20 anos que não queria ouvir conselhos, não aceitava críticas e pouco se preocupava com respeito pelos outros, e o pai de 44 que já não mede o respeito pelos códigos que em tempos o orientaram. "Hoje, entendo a diferença entre o respeito na rua e o respeito construído através da responsabilidade, da família, do trabalho, da maturidade e da música." O rapper não apaga o passado nem o transforma numa história heroica: interessa-lhe como o tempo altera o significado das mesmas palavras. "Quero que eles me vejam como um 'Homi de respeto'", afirma.


A paternidade ocupa uma posição decisiva na sua transformação. Popo estava preso quando nasceu o primeiro filho e desconhecia a existência da criança. Quando saiu, o bebé tinha seis meses. A notícia de que era pai reorganizou-lhe prioridades, escolhas e responsabilidades. Não existe no seu discurso a ideia de mudança num único instante, mas antes uma acumulação de acontecimentos, perdas e consequências que só mais tarde fazem sentido quando vistas em conjunto. É esse acumular que explica a atual produtividade de Popo Show.


Depois de longos períodos em que a música esteve longe do centro da sua vida, o rapper passou a lançar com uma frequência que denuncia urgência. "O facto de pensar que perdi muito tempo sem me focar na minha carreira musical fez com que, nos anos de 2025 e 2026, tivesse efetivamente lançado várias músicas." Há aqui uma ideia de recuperação, mas seria demasiado simples falar apenas em tempo perdido. Se esses anos atrasaram a carreira, também lhe deram a matéria sobre que hoje escreve: emigração, família, erros, perda e paternidade. "Aos 20 anos, eu tinha vivido apenas uma parte da minha história. Hoje tenho muito mais experiências, escolhas, conquistas, dificuldades e aprendizagens para transformar em música."


É uma declaração importante num género que continua excessivamente condicionado pela ideia de juventude. No hip-hop, envelhecer nem sempre significa perder relevância, a longevidade de vários MCs que fizeram da experiência um recurso de escrita mostra isso, mas a indústria continua a procurar obsessivamente novidades. Popo posiciona-se diferente: não faz de conta que tem 20 anos, quer que os 44 sejam parte do argumento.

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VERON chega nesse momento preciso. O título remete para o verão, o calor e uma memória sensorial de Cabo Verde que ganha outro significado quando vivida a partir dos Países Baixos. "Esta época do ano é muito importante para mim e remete-me para o clima de Cabo Verde." É uma observação que revela um mecanismo das diásporas: a possibilidade de um território continuar presente através da língua, do clima recordado, da comida, da música ou de pequenos hábitos que sobrevivem à deslocação. Cabo Verde é, para Popo, não apenas um lugar de nascimento mas uma estrutura cultural que viajou consigo. Por isso escolhe cantar em crioulo: "É uma forma de manter vivas as minhas raízes e a minha língua. O crioulo transporta identidade, memória e pertença."


É nesse ponto que se inscreve numa conversa maior. O rap da diáspora cabo-verdiana nunca é apenas música feita fora de Cabo Verde, é também território negociado à distância: artistas entre geografias, línguas e públicos que encontram no crioulo uma forma de recusar a diluição da identidade que a emigração costuma trazer. Popo quer que essa língua viaje mais longe e contribui para dar a conhecer a cultura e a música cabo-verdianas além das comunidades que já as reconhecem.


Talvez por isso seja firme ao definir o que faz. Numa época em que rap, R&B, afropop e diferentes linguagens melódicas convivem sem fronteiras rígidas, reivindica sem hesitação o lugar de MC. "Eu chamo-me rapper e, como tal, sinto que essa é a minha identidade." Não fecha portas a outros géneros, mas estabelece condição: pode participar em outras linguagens, mas como rapper. A colaboração com Zé Carlos, antigo integrante dos Liviti, ajuda a perceber essa posição. Para Popo, o rap continua ligado a uma função que antecede plataformas e algoritmos: "Não é apenas um estilo musical. Tem potencial para educar, integrar jovens, transmitir mensagens e transformar experiências concretas em narrativa." É uma leitura que recupera a tradição do MC enquanto voz da experiência vivida, sem reduzir o hip-hop a ferramenta pedagógica.


Essa dimensão competitiva aparece quando verbaliza uma ambição pouco modesta: quer tornar-se um dos melhores rappers de Cabo Verde. No hip-hop, a afirmação não causa estranheza, o que interessa é perceber o que coloca dentro da palavra "melhor". "Está relacionado com a qualidade das minhas letras, a autenticidade e o projeto que tenho para a minha carreira musical." Prefere construção a números, responde com realismo à unanimidade: "Sei que não vou agradar a todos."


VERON não resolve essas questões, nem precisa. Representa uma etapa de carreira que tenta ganhar velocidade depois de anos interrompidos. Popo encontra-se num momento invulgar: ainda procura afirmar-se para um público mais vasto quando já possui a quantidade de vida que muitos artistas só adquirem depois da consolidação das carreiras.


Epifânio Rodrigues saiu do Paiol aos 16 anos e passou pela adaptação holandesa, pelo futebol, por trabalhos fora da música, pela perda do irmão, pela prisão que relata, pela paternidade inesperada e períodos prolongados em que o rap parecia existir apenas nas margens da vida. Agora regressa com outra matéria. Quando pensa no futuro, não separa facilmente carreira, família e origem. Quer levar a cultura cabo-verdiana mais longe, manter o crioulo e acredita que o rap ainda pode contar histórias para quem vem depois.


E quando lhe perguntamos como gostaria de ser recordado, a resposta resume aquilo que está a construir nesta segunda vida: "Gostaria de ser lembrado como artista, homem, pai e cabo-verdiano que ama o rap."

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