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Em VERON, Popo Show regressa ao rap com a bagagem de uma vida atravessada por Cabo Verde e pelos Países Baixos. Aos 44 anos, Epifânio Rodrigues não procura recuperar a juventude: procura transformar em música aquilo que só o tempo lhe permitiu compreender.
Antes de Popo Show havia Epifânio Cardoso Rodrigues, um rapaz do Paiol, na ilha de Santiago, que cresceu entre a ausência dos pais, a proteção dos avós e uma curiosidade pela música que começou cedo demais para ser entendida como carreira. Nasceu a 4 de janeiro de 1982 e, aos cinco anos, viu a mãe emigrar para os Países Baixos. Ficou em Cabo Verde com os avós maternos até aos 16, guardando desses anos a memória de uma infância feliz e de uma casa onde havia espaço para sonhar, ainda que o avô insistisse numa prioridade: "Estudar é mais importante do que cantar." Mas a música foi encontrando maneira de entrar. Depois de o ouvirem fazer freestyle, os membros dos Black Stone convidaram-no para participar num espetáculo, o primeiro palco. Muito antes de existir uma discografia, já existiam a palavra, o ritmo e aquela vontade bastante própria do MC de perceber o que consegue fazer quando uma batida lhe abre espaço.
O nome Popo Show chegaria por intermédio de um amigo, entretanto falecido, que o batizou artisticamente há mais de duas décadas. Mas seria preciso atravessar uma fronteira, abandonar temporariamente a música e viver uma parte considerável da vida antes de esse nome adquirir o peso que hoje procura dar-lhe. Aos 16 anos, Epifânio deixou Santiago para se juntar à mãe nos Países Baixos. A mudança foi mais do que geográfica: encontrou uma nova língua, outra cultura e a necessidade imediata de adaptação. O rap ficou suspenso. "A experiência da emigração obrigou-me a crescer, a adaptar-me e a encontrar novos caminhos", recorda.
Um desses caminhos foi o futebol, outro a formação profissional: em 2006 concluiu formação como personal trainer no Albeda College. A música podia ter ficado como uma memória da adolescência em Cabo Verde, não fosse uma aparelhagem da mãe, com espaço para duas cassetes, tornar-se num dos primeiros estúdios improvisados de Popo Show. Gravava-se, ouvia-se e voltava a tentar. Com poucos recursos, foi aprendendo a controlar a voz sem precisar de gritar para lhe dar presença, uma característica técnica que define o seu trabalho. "Hoje, em qualquer estúdio a que vou, dizem-me que as minhas gravações são feitas sem gritar", conta. Essa disciplina acompanhou-o quando formou os CVMOBB com o primo Erico Cardoso, conhecido artisticamente como Kadafi, e o amigo Papito, experiência coletiva que lhe serviu para trabalhar escrita, freestyle, confiança e identidade enquanto MC.

Popo Show | DR
A trajetória de Popo Show nunca avançou em linha reta. Entre o adolescente que fazia freestyle em Santiago e o homem que hoje apresenta VERON existe uma vida em que a música foi várias vezes empurrada para segundo plano, e um passado sobre o qual o rapper fala sem tentar torná-lo mais atraente do que foi. O período mais duro não foi a indústria musical ou as dificuldades de ser emigrante, mas a morte do irmão mais novo. "Comecei a beber muito e saía de casa sem querer voltar, para não ter de ver a dor da minha mãe", recorda. "Estava numa época em que não me importava com nada."
É nesse passado que encontra raiz a faixa "Homi de respeto", onde coloca frente a frente duas versões de si próprio: o homem de 20 anos que não queria ouvir conselhos, não aceitava críticas e pouco se preocupava com respeito pelos outros, e o pai de 44 que já não mede o respeito pelos códigos que em tempos o orientaram. "Hoje, entendo a diferença entre o respeito na rua e o respeito construído através da responsabilidade, da família, do trabalho, da maturidade e da música." O rapper não apaga o passado nem o transforma numa história heroica: interessa-lhe como o tempo altera o significado das mesmas palavras. "Quero que eles me vejam como um 'Homi de respeto'", afirma.
A paternidade ocupa uma posição decisiva na sua transformação. Popo estava preso quando nasceu o primeiro filho e desconhecia a existência da criança. Quando saiu, o bebé tinha seis meses. A notícia de que era pai reorganizou-lhe prioridades, escolhas e responsabilidades. Não existe no seu discurso a ideia de mudança num único instante, mas antes uma acumulação de acontecimentos, perdas e consequências que só mais tarde fazem sentido quando vistas em conjunto. É esse acumular que explica a atual produtividade de Popo Show.
Depois de longos períodos em que a música esteve longe do centro da sua vida, o rapper passou a lançar com uma frequência que denuncia urgência. "O facto de pensar que perdi muito tempo sem me focar na minha carreira musical fez com que, nos anos de 2025 e 2026, tivesse efetivamente lançado várias músicas." Há aqui uma ideia de recuperação, mas seria demasiado simples falar apenas em tempo perdido. Se esses anos atrasaram a carreira, também lhe deram a matéria sobre que hoje escreve: emigração, família, erros, perda e paternidade. "Aos 20 anos, eu tinha vivido apenas uma parte da minha história. Hoje tenho muito mais experiências, escolhas, conquistas, dificuldades e aprendizagens para transformar em música."
É uma declaração importante num género que continua excessivamente condicionado pela ideia de juventude. No hip-hop, envelhecer nem sempre significa perder relevância, a longevidade de vários MCs que fizeram da experiência um recurso de escrita mostra isso, mas a indústria continua a procurar obsessivamente novidades. Popo posiciona-se diferente: não faz de conta que tem 20 anos, quer que os 44 sejam parte do argumento.

DR
VERON chega nesse momento preciso. O título remete para o verão, o calor e uma memória sensorial de Cabo Verde que ganha outro significado quando vivida a partir dos Países Baixos. "Esta época do ano é muito importante para mim e remete-me para o clima de Cabo Verde." É uma observação que revela um mecanismo das diásporas: a possibilidade de um território continuar presente através da língua, do clima recordado, da comida, da música ou de pequenos hábitos que sobrevivem à deslocação. Cabo Verde é, para Popo, não apenas um lugar de nascimento mas uma estrutura cultural que viajou consigo. Por isso escolhe cantar em crioulo: "É uma forma de manter vivas as minhas raízes e a minha língua. O crioulo transporta identidade, memória e pertença."
É nesse ponto que se inscreve numa conversa maior. O rap da diáspora cabo-verdiana nunca é apenas música feita fora de Cabo Verde, é também território negociado à distância: artistas entre geografias, línguas e públicos que encontram no crioulo uma forma de recusar a diluição da identidade que a emigração costuma trazer. Popo quer que essa língua viaje mais longe e contribui para dar a conhecer a cultura e a música cabo-verdianas além das comunidades que já as reconhecem.
Talvez por isso seja firme ao definir o que faz. Numa época em que rap, R&B, afropop e diferentes linguagens melódicas convivem sem fronteiras rígidas, reivindica sem hesitação o lugar de MC. "Eu chamo-me rapper e, como tal, sinto que essa é a minha identidade." Não fecha portas a outros géneros, mas estabelece condição: pode participar em outras linguagens, mas como rapper. A colaboração com Zé Carlos, antigo integrante dos Liviti, ajuda a perceber essa posição. Para Popo, o rap continua ligado a uma função que antecede plataformas e algoritmos: "Não é apenas um estilo musical. Tem potencial para educar, integrar jovens, transmitir mensagens e transformar experiências concretas em narrativa." É uma leitura que recupera a tradição do MC enquanto voz da experiência vivida, sem reduzir o hip-hop a ferramenta pedagógica.
Essa dimensão competitiva aparece quando verbaliza uma ambição pouco modesta: quer tornar-se um dos melhores rappers de Cabo Verde. No hip-hop, a afirmação não causa estranheza, o que interessa é perceber o que coloca dentro da palavra "melhor". "Está relacionado com a qualidade das minhas letras, a autenticidade e o projeto que tenho para a minha carreira musical." Prefere construção a números, responde com realismo à unanimidade: "Sei que não vou agradar a todos."
VERON não resolve essas questões, nem precisa. Representa uma etapa de carreira que tenta ganhar velocidade depois de anos interrompidos. Popo encontra-se num momento invulgar: ainda procura afirmar-se para um público mais vasto quando já possui a quantidade de vida que muitos artistas só adquirem depois da consolidação das carreiras.
Epifânio Rodrigues saiu do Paiol aos 16 anos e passou pela adaptação holandesa, pelo futebol, por trabalhos fora da música, pela perda do irmão, pela prisão que relata, pela paternidade inesperada e períodos prolongados em que o rap parecia existir apenas nas margens da vida. Agora regressa com outra matéria. Quando pensa no futuro, não separa facilmente carreira, família e origem. Quer levar a cultura cabo-verdiana mais longe, manter o crioulo e acredita que o rap ainda pode contar histórias para quem vem depois.
E quando lhe perguntamos como gostaria de ser recordado, a resposta resume aquilo que está a construir nesta segunda vida: "Gostaria de ser lembrado como artista, homem, pai e cabo-verdiano que ama o rap."
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