O que fica depois das luzes do Setúbal Fashion Show

October 4, 2026
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Setúbal Fashion Show | ©BANTUMEN/Nuno Silva

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Antes de a quarta edição do Setúbal Fashion Show arrancar, Aires Muscate dizia à BANTUMEN que o futuro do projeto não se mediria apenas pelo número de modelos, designers ou nacionalidades reunidos na cidade. A medida mais importante viria depois, quando a passerelle ficasse vazia e as luzes se apagassem.


Entre 11 e 13 de setembro, Setúbal voltou a servir de cenário a essa ambição. Sob o tema "Conexões e Futuro", o evento juntou moda, arte, cultura e atividades espalhadas por vários pontos da cidade. O momento central foi o desfile de 12 de setembro, na Casa da Baía. Segundo a Câmara Municipal de Setúbal, participaram perto de meia centena de modelos de cerca de duas dezenas de países europeus e africanos e uma dezena de designers nacionais e internacionais. Houve visitas guiadas, workshops, castings, sessões fotográficas e música, numa programação pensada para que a cidade fosse parte da experiência, e não apenas o sítio do desfile. Nayana Santos abriu o espetáculo, que contou ainda com atuações de The BMCI Project e, no encerramento, de DJ Adimwa.


Nascido em Bubaque, no arquipélago dos Bijagós, o diretor criativo construiu com Setúbal uma relação que começou pela geografia: o mar e a paisagem fizeram-no recordar a Guiné-Bissau. Dessa ligação nasceu um projeto que procura aproximar criação, território e circulação internacional de talento. O evento apresenta-se como uma plataforma cultural dedicada à moda, à criatividade e à expressão contemporânea afro-lusófona.


Passados os três dias, Muscate olha para esta edição sobretudo como o resultado de um processo acumulado. "Estou a sentir o resultado de um trabalho feito três edições atrás", afirma o organizador na entrevista gravada pela BANTUMEN durante o evento. Fala do "espaço que Setúbal está a ganhar no domínio da moda" e da possibilidade de quem chega de fora descobrir a história e a identidade da cidade. Por isso, o desfile não esteve sozinho: a organização levou modelos, criadores e convidados a diferentes espaços de Setúbal em visitas e produções fotográficas.


O resultado que Aires Muscate procura vai além da imagem de uma noite de desfile. Quer que quem passa pelo evento leve consigo "conhecimentos, conexões novas" e memórias da cidade. Quer também que guarde os nomes e o trabalho dos modelos, designers, maquilhadores e cabeleireiros que estão a construir o ecossistema local da moda. A palavra "conexões" ganha assim um sentido prático. Numa indústria que depende tanto da criação como de redes, circulação e acesso a oportunidades, trata-se de pôr em contacto pessoas que de outra forma talvez não se cruzassem.


O programa do desfile separou jovens designers de criadores já com percurso. Entre os projetos emergentes estavam as Meninas da Partilha, da Junta de Freguesia de São Sebastião, com Entre linhas e crochet, e Chantel Constantino e Carolina Soares, da marca Abrumpere, com Reflexo Cego. A documentação do evento incluía ainda Sarita Cruz no segmento de jovens criadores. Entre os designers confirmados estavam Isabel Fernandes, José Emanuel Enesoe, Helen Heimann, Luis Balão e Denise, e Katya Saraiva, da marca Nhagura. As propostas atravessaram temas como a memória, a beleza sintética, a consciência ambiental e Kalunga. A quarta edição voltou também a entregar o Prémio Jovens Designers, dedicado ao talento emergente, o que pôs criadores com níveis de experiência muito diferentes a partilhar o mesmo programa.


Um dos parceiros desta edição foi a Orange Money Europe, serviço de transferências que opera em Portugal e noutros países europeus e permite enviar dinheiro para mais de 30 países, sobretudo em África. A própria empresa organiza parte da sua atividade à volta das ligações financeiras entre a Europa, África e as diásporas. Na Casa da Baía, Benito Lukeba, representante da marca, explicou à BANTUMEN o que justificou o apoio: a proximidade entre um evento que junta criadores e modelos de várias geografias e o objetivo da empresa de criar ligações com a diáspora africana lusófona. "Para nós, faz sentido estar cá neste ambiente", afirmou.


Lukeba apontou dois critérios para associar a marca a iniciativas deste tipo. O primeiro é a valorização da diáspora africana e o segundo é a correspondência entre os valores dos eventos e os da empresa. Sublinhou ainda a importância de dar visibilidade à experiência e ao conhecimento produzidos dentro das comunidades africanas e afro-diaspóricas. Por trás de uma passerelle há financiamento e parcerias que vão além do sector criativo, e ter um serviço financeiro entre os patrocinadores torna essa realidade mais visível.

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