“Pândiga” recupera uma história de cinco séculos para falar de migração e pertença

August 8, 2026
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© João Versos Roldão

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Criada pelo UMCOLETIVO e pela companhia espanhola ACTOS ÍNTIMOS, Pândiga é uma peça que parte da Farsa das Ciganas, de Gil Vicente, para imaginar o que acontece depois da partida das personagens que, no século XVI, não encontram trabalho, comida ou acolhimento. Cinco séculos depois, a criação aproxima essa história das experiências de migração, identidade, pertença e acolhimento que cruzam-se com as experiências pessoais de dois atores da peça, Ousmane Thiocone e Edla Barros.

Ousmane Thiocone chegou a Portugal há cerca de três anos, vindo do Senegal à procura de novas oportunidades para uma vida melhor. O percurso no país passou por diferentes trabalhos na área da agricultura e manufatura. Foi precisamente a ligação entre a história da peça e a sua própria experiência que o levou a integrar o elenco. “O que mais me atraiu foi a mensagem da peça que fala de identidade, migração, pertença e acolhimento, temas que fazem parte da minha vida e da vida de muitas pessoas”, explica.

Durante os ensaios, essa proximidade tornou-se ainda mais evidente. Ousmane recordou as dificuldades de adaptação, a distância da família e também as pessoas que o acolheram quando chegou a Portugal. “Não represento apenas um papel. Também partilho uma parte da minha história.”

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© João Versos Roldão

A experiência migratória trouxe-lhe também uma nova forma de olhar para a identidade e a pertença. Para Ousmane, deixar o Senegal significou levar consigo sonhos, mas também “medos, saudades e desafios”. A procura por um lugar onde pudesse ser aceite é uma experiência que reconhece na narrativa da peça. O ator destacou que o teatro pode ser uma forma de tocar as pessoas. “O teatro permite transformar dor, esperança e memórias em algo que pode tocar outras pessoas. É uma forma de criar empatia.”


A história de Edla Barros começa de outra forma. Natural da ilha do Fogo, em Cabo Verde, iniciou o percurso artístico na companhia de teatro Fladu Fla. Em 2020, deixou o país para estudar Teatro na Universidade de Évora. Depois de terminar o curso, em 2023, Pândiga tornou-se o seu primeiro projeto profissional.


Também para Edla, a experiência de chegada a Portugal acabou por entrar diretamente no processo de criação. Durante uma residência artística, os intérpretes escreveram testemunhos sobre as suas chegadas ao país. Para a atriz, o exercício trouxe de volta memórias de solidão, dificuldades económicas, barreiras linguísticas e discriminação. Escrever em crioulo, a sua língua materna, tornou o regresso a essas memórias ainda mais próximo. “Colocar essas memórias em cena deu profundidade ao meu trabalho e fez com que a minha história ganhasse voz dentro da peça. O que antes era só dor se transformou em expressão artística”, afirma.


É também a partir dessa experiência que Edla olha para a questão da representatividade no teatro português. A atriz considera que ainda existem poucos artistas migrantes e racializados em papéis centrais ou em produções de maior visibilidade. “Muitas vezes, estas vozes aparecem apenas em projetos específicos sobre diversidade, e não como parte natural do panorama artístico”, afirma.

Ousmane reconhece igualmente que ainda há caminho a percorrer, embora considere que a situação tem vindo a melhorar. Para o ator, criar mais oportunidades para artistas de diferentes origens pode tornar o teatro “mais rico e mais próximo da realidade da sociedade”.


Com percursos diferentes, os dois encontram em Pândiga uma experiência comum: deixar um país e procurar construir uma vida noutro lugar. É essa dimensão que esperam transmitir ao público. Para Ousmane, migrar significa deixar parte da vida para trás e recomeçar e para Edla, significa enfrentar uma mudança que é também emocional. A peça procura, assim, aproximar a experiência migratória do público através de histórias que falam de identidade, acolhimento e da procura por um lugar onde pertencer.


Estreada a 14 de junho no Festival de Teatro Clássico de Cáceres, em Espanha, Pândiga estará em cartaz até 13 de outubro, data em que realiza a última apresentação da atual programação, no CAE de Portalegre.

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