Depois de oito anos a consolidar a Nô Balur, Stella lança os primeiros Video Music Awards da Guiné-Bissau

June 7, 2026
stella tamara entrevista
Stella Tamara | DR

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Em 2018, numa entrevista à BANTUMEN, Stella dizia acreditar que a Nô Balur seria “a ponte entre a Guiné-Bissau e o mundo”. Na altura, a afirmação podia soar a ambição de futuro. Hoje, passados 8 anos, parece mais uma linha de continuidade. A plataforma que começou ligada à divulgação cultural, à promoção de artistas e à circulação de conteúdos sobre a Guiné-Bissau transformou-se num projeto mais amplo, com presença no marketing, na comunicação, no ecoturismo, no entretenimento, na educação e, agora, na produção de premiações.


Mas, antes da empresa, das galas e das plataformas digitais, havia uma relação pessoal e antiga com a cultura guineense. Stella recorda que, aos 13 anos, já editava vídeos com músicas da Guiné-Bissau no Movie Maker e publicava-os no YouTube. Não era ainda uma estratégia de comunicação, nem um projeto formal. Era, sobretudo, uma forma de estar próxima de uma identidade que sempre sentiu como parte de si. “Mais do que influenciadora digital, sempre fui uma promotora cultural. Desde muito nova que vivo intensamente a cultura guineense”, afirma, em entrevista à BANTUMEN.


Registada oficialmente em 2017, a empresa, que começou como uma estrutura de divulgação, ganhou corpo enquanto grupo com intervenção em diferentes setores da sociedade guineense, através da Escola Comunitária Neoafrikanista Nô Balur. A plataforma passou também a apoiar artistas, marcas e eventos, não apenas na promoção dos seus trabalhos, mas também na produção de videoclipes, campanhas promocionais e iniciativas culturais. Ao longo dos anos, Liliana foi criando diferentes plataformas digitais para organizar esse trabalho, como Nô Balur Tourism, Nô Balur Entertainment, Mindjer di Balur e Fundação Nô Balur, que passaram a funcionar como ramos de uma mesma estrutura, cada uma focada numa área específica do projeto.

“A economia da Guiné-Bissau é fortemente movimentada pelas mulheres e historicamente elas sempre tiveram um papel fundamental na luta e construção do país”

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Stella Tamara | DR

Para Stella, a expansão não significou afastamento da origem, pelo contrário, a marca foi crescendo como uma árvore com vários ramos, mas sempre alimentada pela mesma raiz: promover, valorizar e preservar a Guiné-Bissau. “Em todos os nossos eventos carregamos a identidade cultural guineense. Acreditamos que não basta apenas promover, é necessário também preservar aquilo que é nosso”, explica.


A entrada no universo das premiações surgiu de forma gradual. Stella conta que a ideia já fazia parte dos planos da Nô Balur desde o início, mas ganhou força a partir da própria comunidade. Seguidores, clientes e consumidores das plataformas começaram a questionar o porquê da marca ainda não realizar eventos próprios, já que estava sempre envolvida no apoio aos projetos de outras pessoas.


Durante três anos consecutivos, a Nô Balur foi media partner da BANTUMEN na Powerlist 100. Essa experiência, marcada por pesquisa, comunicação e contato com diferentes profissionais, mostrou à equipa que era possível construir algo maior e presencial.


Antes disso, a plataforma já tinha experimentado formatos online, como a primeira edição do Festival Nô Balur, durante a pandemia da COVID-19, e o concurso Guiné-Bissau Tene Talento. Mais tarde, Stella decidiu levar para o formato presencial o projeto Mindjer di Balur, criado em 2021 para promover mulheres guineenses no digital. A iniciativa ganhou também uma dimensão solidária, com o objetivo de arrecadar fundos para a produção de pensos higiênicos reutilizáveis.


Hoje, a empreendedora lidera um ecossistema composto por três galas distintas: Guineenses que Inspiram, Mindjer di Balur e Nô Balur Video Music Awards. Cada uma responde a uma área específica, mas todas partilham a missão de construir uma narrativa positiva sobre a Guiné-Bissau e de valorizar o orgulho de ser guineense.


A gala “Guineenses que Inspiram” olha para histórias de superação de guineenses espalhados pelo mundo. Não se apresenta como uma competição sobre quem é “melhor”, mas como uma homenagem a pessoas que, mesmo fora do país de origem ou entre processos de emigração, adaptação e sobrevivência, mantiveram sonhos vivos e continuam a contribuir para a comunidade. A Mindjer di Balur, por sua vez, centra-se na valorização da mulher guineense. O projeto, sem fins lucrativos, reúne revista, gala e summit, e tem como uma das suas frentes a campanha “Todas as Meninas Precisam de Pensos”, dedicada à produção e distribuição de pensos higiénicos reutilizáveis para meninas e mulheres em hospitais e tabankas. “A economia da Guiné-Bissau é fortemente movimentada pelas mulheres e historicamente elas sempre tiveram um papel fundamental na luta e construção do país”, sublinha Stella.


Já o Nô Balur Video Music Awards surge como uma aposta na música e no audiovisual. Depois de quase uma década de apoio direto a artistas guineenses e de mais de 15 anos de promoção da cultura e música da Guiné-Bissau através do YouTube e das redes sociais, Stella quis criar uma plataforma dedicada aos videoclipes.


A ideia nasceu em 2021, inspirada nas grandes premiações internacionais de videoclipes. Em 2022, houve uma tentativa de realizar o evento em Bissau, em formato festival, mas a iniciativa acabou por ser cancelada por motivos de força maior. A equipa, no entanto, não desistiu.


Para a promotora, o NVMA responde também a uma lacuna concreta no mercado cultural guineense. Nos últimos anos, uma nova geração de artistas, realizadores, produtores e criativos tem investido mais em imagem, qualidade visual e identidade artística. Ainda assim, faltava uma plataforma dedicada exclusivamente ao reconhecimento desse trabalho.“Existia uma grande ausência de uma plataforma dedicada ao reconhecimento dos videoclipes musicais da Guiné-Bissau”, afirma. Apesar do crescimento artístico e da qualidade visual de muitos projetos, faltava reconhecimento especializado, valorização dos realizadores, incentivo à criatividade audiovisual, uma premiação focada em videoclipes e visibilidade internacional organizada.


A primeira edição do Nô Balur Video Music Awards reúne 39 artistas nomeados e 50 videoclipes em competição. A premiação inclui nove categorias de votação e seis categorias de mérito e reconhecimento. A seleção é feita por uma equipa de jurados maioritariamente internacional, em colaboração com a equipa Nô Balur, com representantes de Angola, Portugal, Cabo Verde, Guiné-Bissau e Brasil.


Podem submeter trabalhos artistas nascidos na Guiné-Bissau, descendentes de guineenses ou pessoas que tenham adquirido a nacionalidade guineense há mais de cinco anos, desde que cantem e promovam a cultura do país. Para ela, uma gala não deve ser apenas uma noite de passadeira vermelha, fotografias e prémios. Deve abrir espaço para reconhecimento, memória, circulação, oportunidade e continuidade.


Esse caminho, no entanto, não tem sido simples.Os projetos são financiados através dos fundos da própria Nô Balur, provenientes de serviços como publicidade, assessoria e comunicação, além do apoio de alguns patrocinadores e parceiros que acreditam na valorização da cultura guineense.“Um dos principais desafios continua a ser a falta de apoio e visão”, reconhece. “A Guiné-Bissau ainda está a crescer no setor da produção de grandes eventos culturais, o que faz com que muitas pessoas ainda não compreendam totalmente a dimensão e o impacto deste tipo de iniciativas.”


Ainda assim, Stella continua a insistir. Hoje, a adolescente que editava vídeos no Movie Maker continua presente na produtora cultural que organiza galas, constrói plataformas e pensa a cultura guineense como lugar de memória, criação e futuro.“Hoje, com a evolução da tecnologia, consigo desenvolver projetos de forma mais profissional, criativa e com maior alcance, mesmo trabalhando a partir de casa e utilizando apenas um telemóvel”, diz.


No final, fecha a conversa a dizer que quer que a Nô Balur seja mais do que uma marca. Quer que seja um lugar de reconhecimento para quem cria, trabalha e representa a Guiné-Bissau dentro e fora do país.“Quero deixar um legado de valorização cultural, oportunidade e reconhecimento. O objetivo é abrir portas para novos talentos, mostrar ao mundo a riqueza da cultura guineense e inspirar a nova geração a acreditar que é possível sonhar grande, mesmo vindo de um país pequeno. Quero que os artistas se sintam vistos, respeitados e apoiados.”

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